quarta-feira, novembro 29, 2006

A corda

[...]

Dizem que o pensamento
Dá asas a ilimitada mente

Eu fraseio o inverso:
O pensamento ata-a, é uma corda
Ou mesmo espécie de corrente!

Mas defronta-se em paradoxo
Quanto mais forte é o pensar,
Mais flexível é a imperativa corda,
A mente mais longe vislumbrará

E se a atada é forte e baldia
E a corda é tosca, há ironia:
Pode haver mente em liberdade
Livre de cordas, ausente de corpo,
Mas isso nomeiam de insanidade

Augusto Sapienza (índice de posts de Augusto)

À Trovadora Fria


Foram-se os sonhos de um vento de morte!
Aviva-te em mim, ‘sperança nobre!
Neste jovem efervescente coração: forte
Que tanto resistiu aos ataques de tropa hostil...


Resistiu vitorioso em inefável ‘sperança nobre!


Pago em moeda de cobre
Foi o tostão merecido à miséria branca
Das páginas de dor d’um negro breviário:
O sangue, apenas, e centenas de pequenas solidões na franca
Alvura do Nada é que vingaram nos papéis tal qual calvário:


Na dor vingada em prosa antiga, que se desdobre


A nova ira de liras famintas
Diante guitarras d’um curso cigano!
O passado ancestral virtua-se vivo em tintas
Rubras nas faces de dançarinas morenas: o engano,
O devir imprevisto ao furor da cantata, faz com que te sintas
Oh! Meu coração, aturdido
Aos movimentos da ‘strada perdido!

E neste erro, todo horizonte mouro é infinito!
E no desterro que da dor deixou o peito aflito,
Segue o bardo ao jovem raio louro do dia:


Tardia, calou-se Trovadora Fria
Que sorria: “Renuncia”!


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Imagem: www.deviantart.com/print/300752/

Allan Souza (índice de posts dos outros contribuidores)

domingo, novembro 26, 2006


Sonha, que teu desejo é vão,
Ama, que teu sonho é vão,
Vive, que teu amor é vão,
Grite, que tua vida é vã,
Cale, que teu grito é vão,
Morra, que teu silêncio
É o que te cabe
Neste mundo sem perdão,
Perdoa, que tua morte é vã,
E vá, que tua ida
É apenas despedida
Do que tanto te aborrece.

Larissa Marques (índice de posts dos outros contribuidores)

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quinta-feira, novembro 23, 2006

Inveja

Veja a velha inveja
Reveja o que ela enseja
Não tema de senti-la
Inveja,inveja linda

Inveja que me motiva
Despeito de não-poder
Inveja, jóia secreta
Que guardo no íntimo do ser

No fim, sobrará a inveja
Sempre onde homens houver
Inveja, bem humano
De tudo o mais que o outro tiver

Me rendo à inveja
Invejar também é viver
Pois sem o fermento da inveja
O bolo do mundo não pode crescer.

terça-feira, novembro 14, 2006

Desterro de um poeta bem seboso!



Porventura já é dura tua lida?
Oh senhor ditoso entre os demais poetas!
Teu quinhão amadureceu antes de todos por acaso?
És então portador duma lírica impossível aos demais!

Deveras! Ninguém por te alcançar!
Ninguém alcança nem altura nem lonjura de tua letra!
Com tua lábia subiste aos céus e voltastes incólume!

Donde achas que vem te lume?
Se sentes o próprio escolhido!
Quem sabe a figura iluminada!

Pois chega! Jáz o momento em que reinavas!
Protesto e declaro teu desterro já!
Tuas vísceras expostas!

Vergonhas à mostra!
Não te escondas em tua miséria.
Antes pois, trata de desvencilhar-te de teu casco seboso

Quem sabe um dia tua pele volte a sentir
E teus olhos comecem a enxergar novamente
Aquilo que a tu mesmo lhe privaste!

O que sempre foi patente a tua face
E que nunca te preocupastes em cuidar!
Olha ela! Vem ela passando! Ninguém a segura!

Corra! Ande! Pegue o bonde! É ela!
A VIDA!


domingo, novembro 12, 2006

Poema para enterro de poetas


No atesto de óbito:

"Causa Mortis: Ego"

Na lápide:

"Jaz aqui um ex-bom poeta
que pensava que tudo que escrevia
era sempre bom,
pelo mero fato dele ter escrito
"


Então só lhe resta recitar seus versos
no seu desfile pela Avenida da Saudade


Augusto Sapienza (índice de posts de Augusto)